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Os lalalás de Gilmore Girls: a personagem que nunca vimos

"Isso nunca foi um trabalho, sempre foi uma obra de amor", disse Sam Phillips, compositora de Gilmore Girls, ao BuzzFeed News, em 2017.

Data:

Saeed Adyani / Netflix; BuzzFeed News

Existem três notinhas musicais, pequenas e poderosas, no universo de Gilmore Girls. A familiaridade aconchegante delas transporta o público direto para a cidadezinha fictícia de Stars Hollow. Os lalalás se tornaram mais do que uma trilha sonora comum: os fãs os adotaram como mais uma personagem da série, ao lado de Rory (Alexis Bledel) e Lorelai (Lauren Graham).

“Normalmente a gente nem percebe a trilha, não sente que ela é pessoal, parece só um som de fundo”, contou Sam Phillips, compositora de Gilmore Girls e criadora dos lalalás, ao BuzzFeed News em entrevista por telefone. “Foi muito emocionante ver que as pessoas que amam a série batizaram a minha trilha de ‘os lalalás‘. É um elogio enorme.”

No episódio piloto, os fãs conheceram o clássico som dos lalalás: a melodia animada e acelerada acompanha Rory depois da primeira interação com Dean (Jared Padalecki) na Escola de Stars Hollow, indicando que algo está nascendo entre os dois.

Sam Phillips, a compositora da trilha sonora de Gilmore Girls.
Eric Gorfain

Há também uma versão mais suave e lenta, usada em momentos emocionantes e sentimentais, como a que toca quando Rory escreve os primeiros capítulos do livro dela na mesa de Richard (Edward Herrmann) no revival, Gilmore Girls: Um Ano para Recordar. As notas alongadas sinalizam uma experiência importante, daquelas que mudam uma vida.

E existem muitos outros lalalás entre esses dois extremos, revelando o que Lorelai e Rory estão pensando e sentindo e permitindo que os fãs se conectem a esses momentos e emoções também.

Quando Gilmore Girls estreou, no começo dos anos 2000, outras séries adolescentes, como One Tree Hill, Dawson’s Creek, Smallville e The O.C., costumavam incluir músicas famosas. Foi o caso do sucesso de 2000 “Crazy for This Girl”, de Evan and Jaron, em Dawson’s Creek, e de “Hallelujah”, de Jeff Buckley, em The O.C. Mas Amy Sherman-Palladino, criadora de Gilmore Girls, queria algo único, e sabia quem poderia ajudá-la a fazer isso acontecer.

Anos antes de Gilmore Girls estrear na The WB, em 2000, Phillips já tinha uma carreira de sucesso como cantora e compositora. Ela chegou a ser indicada ao Grammy na categoria de Melhor Performance Vocal Feminina de Rock em 1995, por “Circle of Fire”, canção do álbum Martinis & Bikinis, de 1994. No fim dos anos 1990, Sherman-Palladino viu Phillips se apresentar em Los Angeles e a convidou para compor para sua futura série da Warner Bros. TV sobre uma mãe e uma filha.


Rory e Lorelai em frente à Universidade de Harvard, na 2ª temporada de Gilmore Girls.
© The WB / Scott Humbert

“Eu nunca tinha pensado em compor para TV. Eu estava muito focada em escrever músicas, me apresentar e fazer turnês”, explicou Phillips, pouco antes do lançamento do revival Gilmore Girls: Um Ano para Recordar na Netflix. “Mas a série da Amy era tão encantadora, e ela também era muito encantadora.”

Segundo Phillips, Carole King foi a primeira pessoa que Sherman-Palladino convidou para compor a trilha de Gilmore Girls, mas King só aceitou fazer o tema de abertura, que acabou ganhando um legado próprio. Para Phillips, ser a próxima da fila depois de King era “um segundo lugar muito bom”.

“Ela queria algo diferente e me disse que queria a minha voz ali, como uma personagem na cabeça da Lorelai e da Rory”, disse Phillips sobre Sherman-Palladino. “Tentei escrever algumas letras, mas, por causa de todos os diálogos, isso não funcionou muito bem.”

Phillips trabalhando na trilha sonora de Gilmore Girls: Um Ano para Recordar”.
Reprodução: Instagram / Sam Phillips

A compositora de Gilmore Girls contou que acabou se inspirando em Harry Nilsson, que trabalhou na clássica série The Courtship of Eddie’s Father no fim dos anos 1960 e começo dos 1970. Ele era um dos heróis de Phillips e havia cantado os vocais de apoio da trilha da série.

“Por algum motivo, voltei a isso e comecei a pensar nele, e comecei a fazer esses pequenos pedaços de canção que eu não tinha terminado”, disse Phillips, que também se inspirou nos vocais de apoio de King e dos Beatles. A experiência de cantar backing vocals nas próprias músicas e em faixas de outros artistas, como “One Headlight”, do The Wallflowers, ajudou Phillips a descobrir como “comunicar a melodia da forma mais natural”.

“Eu cantava e tocava aquilo de um jeito bem simples, e a Amy gostou muito”, contou Phillips. “Toda vez que eu tentava fazer alguma coisinha a mais, tipo colocar cordas pesadas ou outros instrumentos, ela queria voltar para aquele violão bem simples e a voz.”

E assim nasceram os lalalás.


Trabalhar em Gilmore Girls foi emocionalmente gratificante para Phillips, numa época em que a vida dela se alinhava ao que acontecia na tela: a compositora se tornou mãe solo da filha, Simone, então com 7 anos, após se divorciar do primeiro marido, o compositor e produtor T Bone Burnett, vencedor do Grammy e do Oscar.

“Muita coisa aconteceu durante Gilmore Girls. Eu me divorciei, aconteceu o 11 de Setembro, e passamos por muitas mudanças juntos”, disse Phillips. “Quando eu assistia aos episódios a cada semana, parecia que às vezes os roteiristas estavam lendo as minhas cartas. Senti que muitas das coisas que a Lorelai passava, eu também estava passando.”

“De todos os lugares onde já toquei pelo mundo, Stars Hollow foi um dos meus favoritos.”

A equipe de Gilmore Girls também se tornou uma espécie de família nos bastidores. No começo da série, Sherman-Palladino participava de todas as sessões de alinhamento musical com Phillips, em que a compositora e outros membros da equipe assistiam ao que já tinha sido filmado e decidiam onde a música deveria entrar. “A gente só comia lanchinhos e ria”, contou Phillips. “Essas são algumas das minhas melhores lembranças, porque a Amy é uma pessoa engraçada e incrível, e foi ótima em me deixar fazer o que eu faço, que era criar uma trilha pequena e meio esquisita. Isso nunca foi um trabalho, sempre foi uma obra de amor.”

Não demorou para ela e Sherman-Palladino virarem amigas. “Eu apreciava que a Amy me deixasse fazer algo diferente, e ela sempre me protegeu na hora de receber comentários. Basicamente, eu fazia o que queria fazer”, disse Phillips. “Quando a série acabou, a Amy me escreveu um e-mail lindo dizendo: ‘Obrigada por escrever essas pequenas obras-primas.'” (Mais tarde, Phillips compôs a música de Bunheads, outra criação de Sherman-Palladino, que estreou na ABC Family em 2012.)

Em 2004, Phillips conheceu o segundo marido, Eric Gorfain, violinista e arranjador. Por coincidência, Gorfain havia aparecido em uma das primeiras temporadas de Gilmore Girls ao lado do trovador da cidade. Quando Phillips e Gorfain começaram a namorar, a família de Gilmore Girls a apoiou. “A Amy e nossa maravilhosa produtora Helen Pai fizeram um interrogatório com ele”, contou Phillips. “Elas quiseram garantir que ele era gente boa.”

Phillips (à direita) e seu marido, Eric Gorfain (à esquerda), interpretando trovadores na 6ª temporada de Gilmore Girls.
Warner Bros. Entertainment Inc.

Phillips e Gorfain também acabaram aparecendo juntos numa cena do final da 6ª temporada, o último episódio de Sherman-Palladino na série original. A criadora já tinha convidado Phillips para aparecer na série, mas ela não tinha nenhum interesse em ficar diante das câmeras. Isso mudou no fim da 6ª temporada: não estava claro se Sherman-Palladino voltaria à série, e Phillips se sentiu “sentimental” em fazer uma participação naquele que poderia ser o último episódio da criadora.

No episódio “Partings” (T6E22), trovadores ocupam as ruas de Stars Hollow na esperança de serem descobertos, depois que o trovador de sempre da cidade sai em turnê com Neil Young. Phillips interpreta uma das trovadoras, que dedilha o violão em frente à Lanchonete do Luke.

“Foi muito engraçado estar daquele lado da câmera, e ouvi dizer que, depois que a cena foi gravada, pode ter havido um bar secreto de margaritas em algum lugar do estúdio”, contou Phillips. “Foi uma ótima chance para todo mundo comemorar de verdade. De todos os lugares onde já toquei pelo mundo, Stars Hollow foi um dos meus favoritos.”


Quando chegou a hora de Phillips, Sherman-Palladino e o resto da família de Stars Hollow se reunirem para Gilmore Girls: Um Ano para Recordar, 10 anos depois do final da 6ª temporada, Phillips disse que ficou claro desde a primeira leitura de roteiro que tudo parecia ter voltado para casa.

“A gente nem precisava estar no set. Eles estavam só sentados, lendo os roteiros, e dava para sentir que você tinha voltado”, contou Phillips. “Você estava de volta a Stars Hollow.”

“Foi como reunir a nossa pequena turma da música outra vez.”

Por nostalgia, Phillips gravou alguns lalalás novos no estúdio caseiro que ela e Burnett construíram quando ela começou a trabalhar em Gilmore Girls. Ela até ligou para Mike Piersante, seu engenheiro de gravação dos tempos da série original, para ajudá-la com a música do revival.

“É divertido porque é como uma família em que todos nós amamos a série e trabalhamos nela por anos”, disse. “Foi como reunir a nossa pequena turma da música outra vez.”

Quando Phillips gravou a trilha originalmente, no início dos anos 2000, o prazo apertado para entregar a música a levou a “seguir só a emoção e o instinto”. Ao criar a música do revival, ela teve o luxo de contar com o tempo a seu favor e pôde trabalhar com os mixadores de som da série para acertar tudo. “Ouvi os temas e me certifiquei de que soavam bem, e sinto que evoluí muito no trabalho com música para TV na última década”, disse. “Fiquei muito orgulhosa.”

No revival, composto por quatro episódios de 90 minutos, Phillips também ajudou a compor vários outros temas, incluindo seu favorito, que aparece na cena com Kirk (Sean Gunn) e a porquinha Petal, além da canção “Welcome to Our World”, que toca no episódio “Primavera”, quando Stars Hollow recebe o Festival de Comidas Estrangeiras.

Lorelai e Luke dançando ao som de “Reflecting Light”, de Phillips, na 4ª temporada de Gilmore Girls.
Warner Bros. Entertainment Inc.

“Reflecting Light” também toca ao fundo da montagem do casamento de Luke (Scott Patterson) e Lorelai, em uma das últimas cenas de “Outono”. A música fazia parte do álbum A Boot and a Shoe, de Phillips, lançado em 2004, e Sherman-Palladino gostou tanto quando a ouviu que decidiu usá-la na 4ª temporada de Gilmore Girls, quando Luke e Lorelai dançam no casamento de tema renascentista de Liz (Kathleen Wilhoite) e T.J. (Michael DeLuise). Por isso, fazia todo sentido que ela tocasse de novo no casamento íntimo dos dois.

Phillips estava no set na noite em que filmaram essa sequência e viu todas as luzes, as decorações e os dançarinos. O momento a levou às lágrimas.

“Se você olhar a letra, não é exatamente a música mais romântica”, disse Phillips. “Mas a Amy adorou, e eu fiquei muito honrada por ela ter ocupado esse lugar tão especial no final do último episódio do revival. Achei lindo de verdade.”


Em março de 2017, foi noticiado que a Netflix está em conversas muito iniciais com Sherman-Palladino para continuar o revival e levar ainda mais episódios ao streaming. Embora nada seja certo, Phillips disse em novembro que adoraria compor para mais episódios. Mas ela também quer que a série continue porque, como fã, não viu “um final, só mais um capítulo”.

“Não podemos deixar assim: tem que haver mais.”

“Há perguntas demais. Não resolveu a situação da Rory. Resolveu um pouco mais para a Emily [Kelly Bishop] e a Lorelai, de um jeito muito doce”, disse Phillips. “Não podemos deixar assim: tem que haver mais. A vida da Rory está um caos, então estou torcendo para que, se houver entusiasmo suficiente e as pessoas gostarem o bastante do revival, todos voltem e façam mais.”

Mas, se este for o fim da estrada para Phillips e Gilmore Girls, ela não tem arrependimentos.

“Fui emocionada tantas vezes por grandes músicas no cinema e na televisão, e compor para TV foi um desafio enorme para mim. Em alguns momentos eu acertei, não em todos”, disse Phillips. “Mas, quando eu sentia que a emoção estava passando, esses eram alguns dos meus maiores orgulhos.”

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